Gaia – projeto frustado

Estava sentado sobre um monte de folhas, agrupadas por um script
temporário de empilhamento de objetos em um espaço restrito. Pensando
bem, resolveu armazenar o script que acabara de criar, pois
possivelmente teria utilidade futura.

Meditava sobre o mundo que acabara de rever, após muitos gigaciclos
fora daquele setor ciberespacial, em aventuras levianas por vários
setores, que no final das contas, não tinha valido a pena a visita.
Claro, podia lançar umas exceções, teve de fato alguns setores em que
pôde apreciar a beleza da composição dos programas auto-evolutivos num
sistema fechado.

Estava furioso com o setor. Como pôde ser tão negligente? Vários dos
programas auto-evolutivos possibilitaram a criação de sub-programas,
auto-intitulados homo sapiens, que fizeram uma merda, e das grandes no
sistema operacional que criara, Gaia.

Antes que a fúria avassaladora pudesse destruir algo que ameaçasse a
estabilidade do setor inteiro, não justificando sua destruição por
conta de alguns sub-programas insignificantes, conseguiu se acalmar.
Pensou um pouco nas possibilidades. Criar programas de expurgo? Talvez
não fosse justo, pois ao analisar melhor essas instanciações do
sub-programa anômalo, percebeu que algumas eram processos benéficos ou
inofensivos. Não justificaria reduzir à dimensão de bits randômicos
essas instanciações. Resolveu dar um recado sutil, sutil do ponto de
vista dele.

Acessou as classes de programa chamada “Catastroph v.20.12”, fez umas
ligeiras modificações na quantidade de fluxo de informações que os
objetos dessa classe podiam lançar para o programa ambiente “Enviro
10.12” e lançou o comando que dava início à execução. Ativou o
terminal que simulava uma visão dos sub-programas auto-intitulados
“sapiens” e esperou.

Vulcões, outrora extintos, voltaram repentinamente à carga, devido à
criação súbita de instanciações criadas, meteoritos que materializaram
tão perto da Terra, que tiraram várias cascas da Lua antes de chegarem
à atmosfera terrestre, e os maiores, chegaram na superfície, boa parte
nos oceanos, acarretando tsunamis de proporções monumentais, furacões
que surgiram em áreas onde não tinha nem pelo menos uma das condições
essenciais para o surgimento dessas massas de ar rotatórias e várias
outros fenômenos.

Achou interessante o modo como os processos dos sub-programas trocaram
mensagens entre si, boa parte agindo como propagador das informações
das catástrofes e alguns poucos tentando se alocar para outros
endereços da memória quântica.

Não satisfeito com o expurgo dos processos que interessava a ele que
sumissem, e já não tão preocupado com os eventuais processos
inofensivos, tomou uma decisão.

Formatou o sub-setor responsável por armazenar o sistema operacional
Gaia e deu início ao processo de criação de uma nova versão de Gaia.

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Sobre giseli

Eu: Engenheira, sedenta por bits e chocólatra assumida. Além de ser fã de IAs, principalmente Wintermute e HAL9000
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2 respostas para Gaia – projeto frustado

  1. Eraldo M. disse:

    Ufa ! Cheguei a levei um susto, pensei que estava falando do Satélite Gaia !

  2. giseli disse:

    Hehe, felizmente não! 🙂

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