Percepção, informação, leis interessantes e bom senso

Depois de ter lido a resenha do Lúcio sobre “WWW: Wake“, do autor Robert J. Sawyer, me senti na obrigação de botar as mãos nesse livro o mais rápido possível. Primeiro porque é ficção científica, um de meus alimentos prediletos para o meu lindo cérebro e segundo, porque envolve a emergência de uma consciência artifical, tema que sempre me fascinou (e fascina).

Pelo que soube, o livro é apenas o primeiro volume de uma trilogia. Os próximos estão a caminho, mal posso esperar pelas continuações!

E o que eu gostaria de falar aqui não vai ser uma resenha da história (leia a resenha que mencionei, vai) e sim sobre os conceitos interessantes expostos nela. Para não deixar de falar sobre o livro, já digo que foi uma excelente leitura nerd e cheia de reflexões como, por exemplo: imaginar um cego de nascença enxergando pela primeira vez. Não posso deixar de pensar em como seria ouvir o que as pessoas ouvem.  Ou ainda, como seria ter um terceiro braço? E quando vejo meu gato ronronando, fico pensando se o gato percebe o rabo dele e como diabos é a percepção dele sobre isso e como o controla.

Um dos temas é a teoria da informação. É um tópico bem interessante e de fundamental importância para os sistemas de comunicação e de criptografia. Já ouviram falar da tal entropia de Shannon? De maneira grosseira, mede a quantidade de informação em um conjunto de dados (bits), determinando a quantidade mínima de bits para uma informação ser legível. Achei bem interessante saber que dá para medir a entropia dos idiomas (e consequentemente saber o quão organizado um idioma é). O que me leva a outra coisa bacana, a chamada lei de Zipf.

Essa lei captura um comportamento estatístico interessante num conjunto de dados analisados, que obedecem a uma distribuição de tal maneira que a frequência de uma palavra (ou qualquer outra coisa medida) é inversamente proporcional à sua posição numa tabela de frequências de todas as palavras. Também se pode observar o mesmo comportamento ao analisar o número de terremotos de um certo ponto na escala Ritcher ou qualquer outra coisa. Em resumo, se você pega um punhado de dados e não sabe se há informação, basta aplicar essa lei, plotando a frequência de seus componentes num gráfico logarítmico. Se tiver algo de relevante, o gráfico terá uma linha com inclinação negativa. Legal, não? 😀

O que leva ao campo da criptografia. Uma das técnicas mais usadas para quebrar um texto crifado é saber as frequências com que ocorrem determinadas letras e palavras em tal idioma. Por exemplo, no inglês, a palavra mais usada é “the”. Alguém sabe qual é a mais usada em português? Eu gostaria de saber….  só sei que a letra mais usada na língua portuguesa é “a”. Munido das frequências das letras e palavras de certo idioma, o criptógrafo pode compilar as frequências dos caracteres do dado cifrado e tentar corresponder ao alfabeto verdadeiro, começando por colocar a letra mais frequente em tal idioma no caractere mais frequente na mensagem cifrada. Claro que é uma técnica simples para sistemas criptográficos simples, existem outras análises bem mais sofisticadas que isso.

Por último, mais uma coisa que achei interessante mencionar que vi no livro (e em outro livro, Hal’s Legacy) é o problema de prover a uma inteligência artificial com consciência o chamado “bom senso”. Por isso, inspirado pelo seu programa Eurisko e pela estupidez do HAL9000 no filme “2001 – Uma odisséia no espaço”, Douglas Lenat resolveu criar um banco de dados de bom senso que qualquer IA poderia consultar e aprender. Achei bem bacana essa tarefa hercúlea de codificar todo o conhecimento do mundo, do tipo, saber que um pedaço de lenha pode ser dividido em pedaços menores de lenha, mas que o mesmo não ocorre ao dividir uma cadeira. Mas será mesmo possível codificar tudo isso? Esse é um dos principais problemas ainda não resolvidos na IA…

Acho que esse post já teve overdose de informação demais e vou atacar agora outro livro chamado “Codebreakers: The Swedish Crypto Program during WWII” (na verdade, o título está resumido, mas pretendo comentá-lo num post futuro). 😀

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Sobre giseli

Eu: Engenheira, sedenta por bits e chocólatra assumida. Além de ser fã de IAs, principalmente Wintermute e HAL9000
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8 respostas para Percepção, informação, leis interessantes e bom senso

  1. Lúcio Manfredi disse:

    Oi, Gi!

    Também achei a Lei de Zipf muito maneira. Me pergunto se ela é (ou poderia ser) usada para filtrar sinais cósmicos em busca de comunicação extraterrestre. Me parece tão óbvio (pelo menos da maneira como é mostrada no livro) que quase com certeza deve estar em uso pelo pessoal do SETI e congêneres.

    Ah, e valeu pela propaganda! 🙂

    Bjs.
    L.

  2. Jorge disse:

    Mais um excelente post, Gi ! Seu blog está virando um ponto focal para encontrar idéias bem nerds 🙂 !

    Beijão

  3. jeronimooo disse:

    Também sempre pensei nisso, se o gato tem a percepção do próprio rabo. Meus pensamentos, me divirto com eles de vez em quando hahaha. 😉

  4. André Gomes disse:

    ponto focal pra encontrar idéias bem nerds [X2]

  5. Poutz, mas como fas/ pra comprar isso? =) Fiquei interessado

    Não que a falta de tradução seja uma barreira, mas a Amazon… Será que encontro numa, hum, Saraiva? =S

  6. giseli disse:

    Lúcio, ué, eu podia jurar que o SETI estava usando essa lei no livro! Eles não mencionaram o SETI por lá?

    Jorge, Jeronimo e André, obrigada pela visita! =)

    Peterson, como você deve ter visto, te mandei um email (o qual tu já respondeu enquanto escrevo essa resposta rs).

  7. camilafernandes disse:

    Já pensou em criar uma Giselipédia? 😛

  8. Pingback: CyberGi » Lista de leituras de 2009

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