Quando ouvir demais não é bom

Um comentário sobre sinestesia feito pelo André T. (valeu pela dica!) no post anterior me fez lembrar de uma coisa que aconteceu por alguns dias logo após a ativação do meu implante. Bom, o que acontecia exatamente? Como a cóclea está do lado de alguns nervos, quando ela começou a ser estimulada, de alguma maneira esquisita (meus conhecimentos de anatomia não são bons) acho que alguma coisa responsável pelo processamento da visão também era ligeiramente afetada, o que induzia a uma leve sensação de sinestesia, ou seja, toda vez que eu ouvia algo, meu campo visual ficava ligeiramente esquisito e brilhante. Mas foi coisa de poucos dias, logo depois acho que meu hardware se acostumou às novas condições e viu que ouvir não era bem a mesma coisa que “enxergar” o som.

Semana retrasada, fui fazer minha programação de rotina do implante coclear. É importante ao implantado retornar a cada 6 meses para ver como estão as coisas com seu bichinho de estimação de silício e fazer uns testes. Em certo momento, nos ajustes que a fonoaudióloga estava fazendo, o processador de fala do implante processava os sons num nível absurdamente alto, mas tão alto que toda vez que eu ouvia um som, fazia mexer os músculos do lado esquerdo da minha face e um puxão no meu olho esquerdo. O que NÃO é bom, pois está ocorrendo estimulação excessiva na cóclea e consequentemente em toda a “fiação” que passa perto dos eletrodos na cóclea, inclusive no nervo facial. Para ter uma ideia de o quão perto o nervo facial fica da cóclea, dê uma olhada na figura abaixo:

Nervos nas proximidades da cóclea

Nervos nas proximidades da cóclea

A figura é relativamente antiga, mas mostra no lugar certo onde ficam os nervos faciais e acústicos (praticamente um colado no outro nas proximidades da cóclea). Deu para sentir o drama né? Claro que foram refeitos ajustes para não ocorrer isso novamente. O objetivo do implante é fornecer um meio de conseguir me virar com os estímulos sonoros no mundo. Antes eu achava que era para botar no último volume, mas descobri que não necessariamente. Desde que o som seja de qualidade e inteligível e sem estimular outros nervos que não têm nada a ver com os sons, está de bom tamanho 🙂

Anúncios

Sobre giseli

Eu: Engenheira, sedenta por bits e chocólatra assumida. Além de ser fã de IAs, principalmente Wintermute e HAL9000
Esse post foi publicado em Implante coclear e marcado . Guardar link permanente.

11 respostas para Quando ouvir demais não é bom

  1. Paulo Elache disse:

    Efeito muito interessante, Giseli.
    Ainda bem que seu “wetware” se adaptou ao implante.

    Curiosidade: suas “visões sinestésicas” foram quase “lisérgicas”? Algum tipo especial de voz ou música provocava mais sinestesia?

    Espero que um dia, quando você e seu implante estiverem bem integrados, você possa ouvir/participar de podcasts… e para o PodEspecular você já é de casa! 🙂

    Abraço,
    Paulo Elache
    http://www.podespecular.com.br
    &
    http://www.dimensaonerd.com/category/podcast/podespecular/

    • Giseli Ramos disse:

      Oi Paulo, obrigada por me considerar de casa no seu podcast! 😀 Então, sim, minhas visões foram meio lisérgicas mesmo.. O.o Nem precisei de chá para isso viu rs. Não me recordo se era apenas uma classe de sons que fazia isso, acho que no começo, qualquer som tinha esse efeito em mim, mas depois passou ^^ Ah, ainda vou entender (porque já ouço mesmo rs) seus podcasts!

  2. Fabio disse:

    Absolutamente sensacional, Gi!!!! Aqui estamos fascinados com a sua vivência!

  3. Alex de Souza disse:

    Interessante relato. Se não for muito abelhudo de minha parte, fiquei curioso sobre seu implante e a natureza de sua deficiência. Há quanto tempo você usa o implante? É surdez parcial, congêntia, adquirida? Como foi sua adaptação? Um abraço do leitor ocasional.

  4. Pingback: Tweets that mention CyberGi » Quando ouvir demais não é bom -- Topsy.com

  5. Tânia Lopes disse:

    Eu já operei o ouvido e passei dias com ouvido inundado de sangue, e digo que ouvir todos os sons que nosso corpo produz a cada instante é insuportável. Deus colocou tudo tão perfeitamente harmônico. Mas temos capacidades insondáveis em nós mesmos.
    Beijo

  6. Romeu Martins disse:

    Os Diários de uma Ciborgue têm que sair, hein? Atenção, Tarja, Draco, Aleph, Record, Cia. das Letras… 😉

  7. André T. disse:

    Caramba, que coisa mais interessante.

    Fico pensando nos eventuais problemas e ajustes que teriam que ser feitos no futuro, quando com certeza serão feitos ouvidos e até olhos totalmente artificiais.

    De vez em quando a gente se pega pensando que o que a gente enxerga e ouve são as coisas ‘reais’, mas é sempre bom ter uma perspectiva assim pra lembrar que entre a ‘coisa-em-si’ e o que se percebe dela há uma distância enorme.

  8. Giseli Ramos disse:

    Oi @Alex de Souza , não está sendo abelhudo não. Então, é congênita, e desde pequena usava aparelhos auditivos, mas só ouvia em um lado só com o aparelho. O outro lado é que foi operado com o implante, faz 1 ano já, e a adaptação está indo bem 🙂 Mas ainda há um longo caminho para entender o que escuto…

  9. Giseli Ramos disse:

    Olha, @Tânia Lopes , não considere insuportável não o que tu escuta do corpo, vai se habituar logo logo. Putz, ter o ouvido inundado de sangue é ruim mesmo, ainda bem que já passou hein? Obrigada pela visita! 🙂

  10. Giseli Ramos disse:

    E valeu pela leitura, @Fabio e @Romeu Martins! 🙂

    Pode crer, @André T. , fico imaginando como seria o fine-tuning dos olhos… teriam que tomar muito cuidado mesmo para não queimar os olhos :S

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s